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A DESCRIÇÃO DO MUNDO ESPIRITUAL Adilton Pugliese
Registros históricos citam sobrevivência após desencarnação.
“O estado das almas, depois da morte, não é mais um sistema, porém o resultado da observação. Ergueu-se o véu; o mundo espiritual aparece-nos na plenitude de sua realidade prática; não foram os homens que o descobriram pelo esforço de uma concepção engenhosa; são os próprios habitantes desse mundo que nos vêm descrever a sua situação, em todas as fases da felicidade e da desgraça, assistindo, enfim, a todas as peripécias da vida de além-túmulo.” (Allan Kardec – O Céu e o Inferno – 1ª parte - cap.II)
Para onde vamos depois da morte? O que iremos encontrar no além, logo ao chegar, após a crise da morte? Até o advento do Espiritismo, no século XIX, são mais de cinco mil anos de registros históricos e lendários; de esforços na tentativa de responder a essas perguntas.
Nos povos primitivos
Os povos primitivos, em geral, mesmo os mais atrasados, consideravam a morte como uma passagem para outro estádio. Na América, por exemplo, no culto aos mortos, parentes e amigos acompanhavam o cadáver, colocando sobre a sepultura as coisas de que o morto teria mais necessidade no Outro Mundo, como alimentos, armas, adornos, etc., para que o Espírito não sentisse falta de coisa nenhuma durante a longa viagem. Inúmeros historiadores e pesquisadores têm concluído em seus estudos sobre o comportamento dos romanos, chineses, gregos, os povos ameríndios, que rendiam culto aos seus mortos, evidenciando a crença na imortalidade da alma e, conseqüentemente, na existência de um mundo espiritual, tornando-o, assim, uma idéia universal1.
Na cultura do povo egípcio a crença na sobrevivência do Espírito e no mundo espiritual desempenhou importante papel. Eles possuíam uma descrição pormenorizada no Livro dos Mortos e acreditavam que os mortos deveriam comparecer diante de Osíris, deus e juiz dos mortos, e serem julgados de acordo com suas ações na Terra.
O morto deveria passar pelas provas do julgamento, que compreendiam em declarar-se inocente de 42 pecados (corrupção, mentira, cobiça, adultério, ira, orgulho, desonestidade, furto, homicídio, por exemplo); enumerar suas virtudes (se dera água aos sedentos, pão aos famintos) e, finalmente, tinha o seu coração, que na concepção egípcia representava a consciência, colocado numa balança e comparado o seu peso com o de uma pena, símbolo da verdade. Vencidas essas provas o morto seria encaminhado a um reino celestial ou, não passando nos testes, era condenado à fome e à sede perpétuas num lugar escuro, para sempre privado da luz. As descrições falam de lugares nevoentos, pantanosos, cheios de árvores.
No século XV a.C. Zoroastro fundou a religião dos persas, que ficou conhecida como Zoroastrismo e onde esboçou uma noção vaga da vida além-túmulo, embora as idéias deturpadas em torno da ressurreição, do juízo final e do fim do mundo, quando os mortos seriam julgados, com os justos entrando no gozo imediato da bem-aventurança, enquanto os maus seriam lançados às chamas do inferno. No fim, contudo, todos se salvariam, pois o inferno persa não durava para sempre.
Os antigos gregos falavam de um rio, o Estiges, onde se encontrava um barqueiro, Caronte, o qual conduzia as almas ao Hades, para o julgamento necessário. Existiria uma ilha dos Bem-Aventurados, para onde iriam as almas que praticaram virtudes durante a existência. Sócrates e Platão, considerados precursores do Cristianismo e do Espiritismo, acreditavam na existência dos entes espirituais e divulgavam a existência de um mundo invisível, em que os desencarnados descansavam no intervalo das encarnações.
Um dos personagens de Platão, no livro A República, descreve o mundo espiritual como um local bem parecido com a Terra. Platão também declarou que o mundo físico é uma cópia imperfeita do mundo das idéias. Os hindus possuem descrições do além como dividido em regiões de sofrimento e de felicidade. As primeiras regiões existiriam desde as entranhas da Terra.
“Os muçulmanos, realizando o sincretismo entre o Judaísmo, o Cristianismo e suas crenças tribais, idealizaram um inferno de dores e castigos eternos, ao lado de um céu onde seriam proporcionados prazeres físicos e espirituais aos praticantes dos preceitos do Alcorão”.
Segundo a Teologia Judaica antiga, havia pelo menos três céus: o primeiro era a região nublada do ar, onde voam os pássaros, que por isso mesmo são chamados “aves do céu”. O segundo céu é o firmamento, onde luzem o Sol, a Lua, as estrelas; e o terceiro céu dos judeus achava-se simbolizado como a Casa de Deus e dos santos anjos. Teria sido desse céu que Jesus veio e para o qual retornou. Alguns judeus acreditavam na existência de sete céus.
Tarso e Alighieri
Podemos lembrar uma bela citação de Paulo de Tarso, na Segunda Epístola aos Coríntios (12:2-4): “–Conheço um homem em Cristo que há 14 anos (se no corpo não sei, se fora do corpo não sei; Deus o sabe) foi arrebatado ao terceiro céu. E sei que o tal homem foi arrebatado ao paraíso e ouviu palavras inefáveis de que ao homem não é lícito falar”.
O poeta italiano Dante Alighieri, nascido em Florença no ano 1265 e desencarnado em 1321, afirmou que visitara os mundos invisíveis, e registrou suas experiências em um poema épico intitulado A Divina Comédia. “Embora o relato esteja impregnado de fantasias e fruto da fértil imaginação do poeta, há muita coerência em várias descrições”.
Os fatos que afirma ter presenciado, durante os seus desdobramentos ao Mundo Espiritual foram feitos de acordo com as idéias teologais da Idade Média. Dividiu o Além-Túmulo em paraíso, purgatório e inferno, expressando as faixas vibratórias onde se localizam as coletividades de Espíritos no Mundo Invisível.
. Visão clássica
O filósofo do Espiritismo, Léon Denis (1846-1927), em sua obra No Invisível, refere-se a Dante Alighieri, declarando ter sido ele médium de grande potencial e sua obra, A Divina Comédia, o relato da peregrinação de Dante através do Mundo Invisível.
No século XVIII, novas revelações são feitas por intermédio de um sueco, considerado o homem mais culto de sua época: Emmanuel Swedenborg, nascido em Estocolmo em 1688 e desencarnado em Londres em 1772. Swedenborg obteve destaque em várias áreas do conhecimento humano, a exemplo da Teologia, da Física, da Mecânica. Escreveu cerca de 29 volumes e é considerado um dos precursores do Espiritismo.
Desde a infância sua mediunidade se evidenciou, além da psicografia e de forte intuição, passando a ter intensas e ampliadas visões do Mundo Espiritual.
Dezessete séculos depois de Jesus, que havia declarado aos apóstolos “há muitas moradas na casa de meu Pai”2, Swedenborg escreveria: O Universo se compõe de esferas diferentes, com vários graus de luminosidade e felicidade, e essas esferas nos servirão de morada depois da morte na Terra, de conformidade com as condições espirituais que aqui tenhamos conseguido. 3
Informa o autor de Sabedoria Angélica e A Verdadeira Religião Cristã, que no Mundo Espiritual há terras como no mundo natural; planícies e vales, montanhas e colinas, fontes e rios; há jardins, bosques, florestas, cidades e, nessas cidades, casas, livros, movimentação, intensa azáfama, mas que todas essas coisas, dos céus, são imensamente mais perfeitas que as do mundo natural.
Informes continuam As informações sobre a vida no mundo espiritual continuaram a ser reveladas, no decorrer dos tempos e, nos séculos XIX e XX se intensificaram.
Há um destaque interessante, por exemplo, na fase da iniciação de Allan Kardec. Ele revela em sua agenda íntima, em seu diário pessoal, constante da segunda parte do livro Obras Póstumas – os textos que o saudoso Herculano Pires (1914-1979) chamou testamento doutrinário de Allan Kardec4 –, que nos primeiros contatos com os Espíritos, nas sessões que aconteciam na casa da família Baudin, procurava “obter a resolução dos problemas que o interessavam, do ponto de vista da Filosofia, da Psicologia e da natureza do mundo invisível”5 .
Levava para cada reunião uma série de questões preparadas e metodicamente dispostas e que eram sempre respondidas com precisão, profundeza e lógica. A partir de então as sessões assumiriam caráter muito diverso.
Declara, ainda, o Codificador que, a princípio, pensara apenas em instruir-se. Mas, quando viu que tudo aquilo constituía um todo e ganhava as proporções de uma doutrina, teve idéia de publicar os ensinos recebidos, para instrução de toda a gente.
A Doutrina Espírita tem ensinado, há um quase um século e meio, que nas regiões espirituais há trabalho e aprendizado, esclarecendo que inexiste o sonhado céu eterno e sim dimensões espirituais, onde a vida continua, abundante e convidativa ao esforço criativo e solidário.
Depois da morte, portanto, o homem é arrebatado à dinâmica da vida espiritual, onde atuará consoante o seu grau evolutivo. Iludem-se, portanto, os que imaginam uma vida pós-morte estacionária e contemplativa, no contexto de um Universo que se movimenta e se renova incessantemente.
1 . Loureiro, Lúcia. Colônias Espirituais – 1ª ed. – Mnêmio Túlio – p.13. 2 . João – cap. XIV- 1 a 3. 3 . In Loureiro, Lúcia. Opus cit. – p.22. 4 . In Kardec, Allan. Obras Póstumas – 8ª ed. – LAKE – p.4. 5 . Kardec, Allan. Obras Póstumas – 32ª ed. – FEB – p.269, 270. Outras referências utilizadas: - A Trajetória Evolutiva do Espírito - Djalma Argollo, 1ª ed. – 1997, Ed. Logos. - Possibilidades Evolutivas - Djalma Argollo, 1ª ed. – 1994, Ed. Mnêmio Túlio. - Swedenborg – Uma Análise Crítica - Hermínio Miranda, 1ª ed. – 1991, Ed. Celd.
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